Fauna Report / Artigo
Quantas espécies existem? A resposta honesta é que ninguém sabe
Já demos nome a cerca de 1,5 milhão de espécies e estimamos muitos milhões a mais. A lacuna não é só de animais por descobrir — "uma espécie" é mais difícil de definir do que parece.
Pergunte quantas espécies dividem o planeta com a gente e você vai receber respostas que discordam por uma ordem de grandeza. Cerca de 1,5 milhão foram formalmente nomeadas e descritas. As estimativas do total verdadeiro costumam ficar perto de 8,7 milhões, mas números sérios vão de cerca de 2 milhões a mais de 100 milhões quando se incluem os grupos menos conhecidos.
É estranho ter tanta incerteza sobre isso. A incerteza tem duas origens, e só uma delas é a que as pessoas esperam.
A lacuna óbvia: a maioria das espécies não foi descrita
A primeira origem é simplesmente que ainda não encontramos a maioria delas. Descrever uma espécie é um trabalho lento e especializado — um espécime, uma comparação com tudo o que já foi nomeado de parecido, uma descrição formal publicada. E os grupos com mais espécies são justamente os que têm menos gente estudando.
Os vertebrados — mamíferos, aves, répteis, anfíbios, peixes — estão quase todos descritos, porque são grandes, carismáticos e bem financiados. Mas eles são um arredondamento no total. O grosso da vida animal são os insetos, e o grosso dos insetos são os besouros, e um número imenso deles nunca foi nomeado. Some os fungos, os nematódeos, os invertebrados de profundidade e o mundo microbiano, e a fração descrita encolhe ainda mais.
A consequência incômoda: há espécies se extinguindo sem nunca terem sido nomeadas. Entram e saem da existência sem jamais aparecer na contagem.
A lacuna mais difícil: "espécie" não é uma categoria exata
A segunda origem é a que surpreende. Mesmo para os organismos que temos em mãos, os biólogos não concordam totalmente sobre o que conta como uma espécie ou duas.
A definição que a maioria aprende — um grupo capaz de cruzar entre si e gerar descendentes férteis — é o conceito biológico de espécie. É útil, e falha o tempo todo. Não diz nada sobre organismos que se reproduzem de forma assexuada. Tem dificuldade com populações que poderiam cruzar mas nunca se encontram. E não pode ser aplicada a nada conhecido apenas por fósseis ou espécimes preservados.
Por isso os biólogos usam vários conceitos lado a lado. Um conceito morfológico agrupa pela forma física. Um conceito filogenético agrupa pela ancestralidade compartilhada, lida no DNA. Eles nem sempre traçam as linhas nos mesmos lugares — e onde discordam, a contagem de espécies muda dependendo de qual você usar.
Agrupadores, divisores e um número que se mexe
Como os conceitos discordam, os taxonomistas se dividem em dois campos informais. Os agrupadores tendem a tratar a variação como diversidade dentro da espécie e mantêm a contagem baixa. Os divisores tendem a elevar populações distintas a espécies plenas e empurram a contagem para cima.
Isso significa que o total pode mudar sem que ninguém descubra nada novo. Uma única "espécie" bem estudada pode ser dividida em cinco quando alguém olha de perto — os mesmos animais, cinco vezes a contagem. O número reflete tanto uma convenção quanto um fato da natureza.
O que o DNA fez com a contagem
O sequenciamento genético barato jogou lenha nessa fogueira. Ele revelou as espécies crípticas: populações que parecem idênticas, vivem lado a lado e acabam sendo geneticamente distintas o bastante para que a maioria dos biólogos as considere espécies separadas.
O que por muito tempo foi registrado como uma única espécie de ampla distribuição vem se revelando, vez após vez, como várias. Isso está reescrevendo silenciosamente a contagem para cima em grupos inteiros — não por exploração, mas por reexame do que já estava na prateleira.
Por que a imprecisão importa
Seria fácil arquivar isto como implicância acadêmica. Não é, por um motivo prático: você não pode proteger, contar ou incluir na Lista Vermelha uma espécie que não foi nomeada. A unidade da conservação é a espécie, então a questão em aberto sobre o que uma espécie é se propaga para cada decisão seguinte sobre o que será salvo.
Isso também molda como você deve ler as notícias sobre vida selvagem. "Cientistas descobrem nova espécie" raramente quer dizer uma criatura que ninguém jamais tinha visto. Mais frequentemente quer dizer que uma população já conhecida foi descrita formalmente pela primeira vez, ou que uma espécie existente foi dividida depois de um trabalho genético. Ambos são avanços reais. Nenhum é bem a imagem do explorador afastando as folhas que a frase sugere.
Como ler o número
Da próxima vez que você vir um número de quantas espécies existem, ou a afirmação de que uma nova foi encontrada, tenha três coisas em mente:
- A contagem descrita é um piso, não um total — é o que nomeamos, não o que existe.
- O total é uma estimativa com uma faixa ampla — um único número redondo esconde uma discordância real.
- **"Nova espécie" geralmente quer dizer recém-descrita ou recém-*dividida*** — valioso, mas não é o mesmo que recém-vista.
A contagem da vida na Terra não é um fato à espera de ser consultado. É uma estimativa em movimento, moldada tanto pela forma como escolhemos traçar as linhas quanto pelo que já encontramos. Isso não é uma falha da biologia. É a cara de uma resposta honesta a uma pergunta genuinamente difícil.
Fontes e leituras adicionais
- Mora, C. et al. (2011). How Many Species Are There on Earth and in the Ocean? PLoS Biology 9(8): e1001127 — a origem da estimativa de ~8,7 milhões e da constatação de que a maioria das espécies não foi descrita.
- Wiens, J.J. (2023). How many species are there on Earth? Progress and problems. PLoS Biology 21(11): e3002388 — uma perspectiva mais recente sobre por que o total não para de mudar, incluindo o efeito dos dados moleculares.



